Pacarrete

Pacarrete (Marcélia Cartaxo), lançado em 2020 e dirigido por Allan Deberton, é um belo reflexo da sociedade brasileira, que aos poucos vai sufocando e apagando seus grandes talentos — muitos dos quais morrem pelo interior sem nunca ter tido a chance de brilhar.

Pacarrete é uma senhora — ou melhor, uma “madame” — que enfrenta a constante reprovação e os julgamentos alheios por sonhar em ser uma grande bailarina. Com vigor e paixão, ela luta por uma oportunidade de apresentar sua arte na festa do município. Dividindo-se entre a rotina de cuidar da irmã, Chiquinha (Zezita Matos), e a busca pelo seu objetivo, a protagonista carrega o peso do dever e a leveza do sonho.

A genialidade do roteiro nos conduz por diferentes nuances emocionais: mesmo nos momentos mais dramáticos, o público é resgatado pelo humor gracioso e pelo temperamento explosivo da personagem. Diante de tantos desafios, Pacarrete tenta manter uma postura firme e altiva. Contudo, o filme expõe sem filtros a dura realidade dos sonhadores no Brasil. Quando acreditamos que ela finalmente alcançará seu objetivo, somos surpreendidos por um clímax doloroso, que transforma a figura vibrante em uma pessoa reclusa e desiludida.

Essa transição é traduzida de forma formidável na direção de arte e no figurino: as cores claras e a maquiagem vibrante do início dão lugar a tons escuros e apagados. A casa, antes luminosa, torna-se gélida e sombria, fazendo com que o espectador sinta, ao lado da protagonista, a perda gradual da esperança.

Há pouco tempo, ao ver o trailer do filme no Instagram, a premissa me chamou a atenção não apenas por mostrar uma mulher idosa que sonha em dançar, mas pelo paralelo cirúrgico com a vida real. Muitos de nós conhecemos pessoas mais velhas que precisaram abandonar seus talentos por falta de incentivo da família, ausência de apoio do Estado ou pelas exigências de um sistema que cobra sobrevivência imediata e não permite arriscar.

Pacarrete é uma obra-prima sobre a realidade brasileira: um retrato sensível dos grandes artistas espalhados pelo país que acabam esquecidos pelo tempo, sem nunca receberem o palco que mereciam.



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