Emergência Radioativa - Mais um acerto da Netflix?
Para os que não conhecem — o que a esta altura acho muito improvável —, em setembro de 1987 ocorreu um incidente no Brasil conhecido como "Incidente do Césio-137", na cidade de Goiânia. Um antigo equipamento de radioterapia abandonado foi encontrado por moradores e, ao ser aberto, revelou um composto químico radioativo que, obviamente, a população desconhecia. Até começarem a aparecer os primeiros sintomas, parte dos habitantes já havia ficado exposta ao material por um longo período. De acordo com o site do governo de Goiás, o material foi manipulado e movimentado pela cidade no dia 13, mas o perigo radioativo só foi identificado no dia 29. (Caso queira saber a história completa, você pode consultar o site oficial do Estado:
No núcleo científico, além dos médicos e outros profissionais, três cientistas se destacam: Márcio (Johnny Massaro), Orensteis (Paulo Gorgulho) e Paula (Clarissa Kiste). Além deles, temos Eduardo (Antonio Saboia), no núcleo médico, e Esther (Leandra Leal), apresentada como especialista em segurança radioativa, acompanhando a equipe no atendimento aos pacientes enquanto os outros físicos se concentram no rastreio e controle da contaminação. A série se sustenta em um núcleo familiar que, por desconhecer os riscos, fica desconfiado ao ser abordado pelos cientistas. Com a intensificação dos sintomas, eles se veem obrigados a colaborar para tentar solucionar o problema.
A série possui uma narrativa incrível e fluida, mantendo o suspense na dose certa. A preocupação dos cientistas com os riscos de contaminação, somada ao medo das famílias de perderem uns aos outros, é a cereja do bolo. Somos transportados para aquela situação, como se estivéssemos vivendo tudo aquilo junto com eles, e os atores não pecam em nada na entrega.
Nem a política fica de fora da série: aqui vemos o cenário da negligência do governo, do conflito de interesses e até mesmo da disputa entre Estado e Ciência. Enquanto o Estado está mais preocupado em manter sigilo e evitar que a população saiba — usando a ideia de que o pânico geral seria prejudicial para as ações de contenção —, os cientistas estão mais focados em mapear e conter a contaminação. Para isso, a mídia se mostra necessária, e aqui surge mais um conflito: o sensacionalismo que não respeita as orientações científicas e está mais preocupado em dar a notícia a qualquer custo. Em vez de ouvir exatamente as palavras dos especialistas, a imprensa muitas vezes as retira de contexto, criando um cenário caótico que deixa tanto as famílias que não estavam contaminadas quanto as que estavam ainda mais preocupadas.
Esse sensacionalismo midiático, inclusive, levanta atos de protesto que tornam a contenção ainda mais difícil. Vemos cenários em que outros estados se recusam a receber parte do material para descarte e moradores de outras regiões protestam para que o rejeito não seja deixado por ali — mesmo com os cientistas preparando toda a logística para evitar qualquer tipo de contaminação.
O único fator que me incomoda envolve duas personagens femininas. A primeira é Bianca (Júlia Portes), esposa de Márcio, que no início fica naquela posição clássica da esposa que cobra atenção para a família, tratando o trabalho do marido como um problema. É aquela visão egoísta disfarçada de preocupação; incomoda-me que sempre coloquem companheiras de protagonistas nesse papel, como se não fossem capazes de entender a importância do trabalho de seus parceiros. A outra é Paula (Clarissa Kiste): enquanto os outros dois cientistas são colocados com certo carisma — Márcio com sua ingenuidade e Orensteis com sua compreensão —, Paula é apresentada como uma personagem fechada e, às vezes, grosseira. Sei que estavam trabalhando em um incidente grave, mas por que os outros têm tempo de serem agradáveis e ela precisa receber o título de "chata"? É algo lamentavelmente comum em personagens femininas.
De toda forma, a série nos entrega algo único e é uma história que precisa ser lembrada, tal como a da Boate Kiss em Todo Dia a Mesma Noite. Esses eventos caem no esquecimento e o perigo disso é repetir os mesmos erros. Aqui está a beleza da série: ela permite a dramatização, mas também traz memória e aprendizado. Certamente merece estar no ranking das melhores produções brasileiras, com uma execução impecável, apesar da problemática citada.
Comentários
Postar um comentário